Agronegócio Agro

Consórcio com o milho aumenta a produção sustentável de cana-de-açúcar no Cerrado

A tecnologia consiste na antecipação do plantio da cana para o início do período chuvoso. Em março, quando é feita a colheita do milho, a cana já está plantada.

Por Assessoria de imprensa

13/10/2021 às 19:00:00 - Atualizado h√°

Pesquisa da Embrapa aponta que o consórcio com o milho garante resultados mais r√°pidos e rent√°veis ao setor produtivo da cana-de-a√ß√ļcar (agricultores e usineiros) no Cerrado. A tecnologia permite antecipar o plantio da cultura da cana-de-a√ß√ļcar para o in√≠cio do per√≠odo chuvoso, o que amplia a janela de plantio e "desafoga" a implanta√ß√£o do canavial que é mais concentrada no m√™s de mar√ßo.

Além disso, o plantio em consórcio com a cultura de gr√£os anula qualquer risco de o produtor de cana n√£o ter a √°rea dispon√≠vel para o plantio em caso de arrendamento, quando muitas das vezes a colheita da cultura que antecede o plantio da cana atrasa. A cana consorciada, considerada como cana de ano, apresenta rendimentos compat√≠veis com a cana de ano e meio. Trata-se de uma vis√£o inovadora em rela√ß√£o ao sistema de plantio de cana-de-a√ß√ļcar utilizado no Brasil, que alia ainda sustentabilidade à produ√ß√£o, por proteger o solo da eros√£o e intensificar o uso conjunto da terra.

Ao contr√°rio do que ocorre com as culturais anuais no Cerrado, como soja e milho, cujo plantio é feito integralmente no in√≠cio do per√≠odo chuvoso, o da cana-de-a√ß√ļcar é realizado no fim das chuvas, por volta do m√™s de mar√ßo. Essa estratégia é utilizada pelos agricultores e usineiros para otimizar o desenvolvimento da planta, j√° que o rebrote inicial da cana é muito lento quando semeada em novembro/dezembro.

"O problema é que o per√≠odo em que ela de fato come√ßa a crescer coincide com o in√≠cio da seca, o que acaba impactando sua produtividade", explica o pesquisador da Embrapa Cerrados (DF) Jo√£o de Deus, l√≠der do projeto Consórcio cana-de-a√ß√ļcar e milho para intensifica√ß√£o sustent√°vel da produ√ß√£o de a√ß√ļcar e etanol no Cerrado (Canamilho).

Uma das grandes vantagens da tecnologia é desafogar o plantio de mar√ßo, j√° que traz para o in√≠cio do per√≠odo chuvoso o plantio de parte da cana que seria plantada só no fim das chuvas. A cana é plantada como se fosse cana de ano (12 meses), mas se comporta como uma cana de ano e meio (18 meses).

"Quando consorciada com milho no in√≠cio do per√≠odo chuvoso, a cana-de-a√ß√ļcar apresenta excelente brota√ß√£o, porém, paralisa o crescimento devido à competi√ß√£o por luz. Somente retoma o perfilhamento após a colheita do milho no fim do per√≠odo chuvoso. Assim, a cultura é plantada de forma antecipada, mas fica em modo de espera até o fim do per√≠odo chuvoso, quando o milho é colhido. Trata-se de uma vis√£o inovadora em rela√ß√£o ao sistema de plantio de cana-de-a√ß√ļcar utilizado no Brasil", explica o especialista.

A tecnologia proposta ajuda também a resolver um importante problema, que é a janela estreita de plantio, visto que no sistema de consórcio n√£o h√° raz√£o para a press√£o na retirada da cultura de gr√£os da √°rea, uma vez que a cana j√° estar√° plantada.

Mas, se parte da cana-de-a√ß√ļcar no Cerrado é plantada no fim do per√≠odo chuvoso, outra parte é plantada no in√≠cio das chuvas, j√° que n√£o é poss√≠vel renovar toda a √°rea de canavial com plantios no sistema de cana-de-a√ß√ļcar de ano e meio (a taxa de renova√ß√£o dos canaviais é de 10% a 20% ao ano). O manejo adotado atualmente, no entanto, exp√Ķe o solo a risco de eros√£o, devido ao espa√ßamento largo (1,5m). Com a utiliza√ß√£o da cultura intercalar do milho esse problema é minimizado, pois o solo é rapidamente coberto pela √°rea foliar de ambas as culturas. Dessa forma, além de contribuir para otimizar a log√≠stica de plantio do canavial das usinas, a tecnologia também auxilia na intensifica√ß√£o do uso da terra e na prote√ß√£o do solo.

Experimentos mostram que consórcio gera ganho significativo de receita bruta

De acordo com os resultados obtidos pelos pesquisadores, a renova√ß√£o do canavial por meio do plantio da cana consorciada com milho é promissora e economicamente vi√°vel. "Observamos que a produtividade do milho n√£o foi afetada pela competi√ß√£o com a cultura da cana-de-a√ß√ļcar, bem como a brota√ß√£o e perfilhamento da cana n√£o foram impactados pela consorcia√ß√£o, após a colheita do milho", informa Jo√£o de Deus.

Segundo o levantamento feito a partir dos experimentos implantados em Planaltina (DF), Dourados (MS) e Jaguari√ļna (SP) a produtividade média do milho foi de 8,5 t/ha, sendo o maior valor de 14 t/ha e menor 5,7 t/ha. "Em nenhuma das situa√ß√Ķes a produtividade do milho consorciado com cana-de-a√ß√ļcar foi menor do que o cultivo solteiro", afirmou. A média de produtividade de colmos de cana dos experimentos (130 toneladas/ha) e o a√ß√ļcar total recuper√°vel (ATR) da cana n√£o foram afetados pelo consórcio com o milho. Nessa compara√ß√£o, o sistema consorciado de cana e milho foi plantado no in√≠cio do per√≠odo chuvoso (outubro/novembro), com a colheita do milho em mar√ßo do ano seguinte. A cana solteira foi plantada em sucess√£o ao cultivo de milho solteiro também em mar√ßo.

O pesquisador Cesar José, da Embrapa Agropecu√°ria Oeste (MS), foi o respons√°vel por avaliar a tecnologia na regi√£o de Dourados (MS). A avalia√ß√£o do sistema foi feita por duas safras. Inicialmente num experimento-piloto na Embrapa, depois numa propriedade rural parceira em escala de produtor. Segundo ele, além de confirmar que o sistema n√£o afeta a produtividade do milho, também se mostrou bastante eficiente do ponto de vista de retardar o desenvolvimento inicial da cana plantada em novembro. "Esse objetivo de ter uma cana plantada anualmente com desenvolvimento fisiológico de um ano e meio também foi plenamente alcan√ßado", afirmou.

Ele acredita que a tecnologia pode ter uma boa ades√£o principalmente nas regi√Ķes que possuem clima de inverno mais bem definido. Alguns desafios, no entanto, precisar√£o ser superados para que o sistema possa ser plenamente adotado na regi√£o sul do estado sul-mato-grossense. Um desses entraves é a pouca aptid√£o para milho dessa regi√£o, por conta dos seus solos arenosos de baixa fertilidade, o que necessitar√° inicialmente de corre√ß√£o das √°reas. "Outro obst√°culo para a ado√ß√£o da tecnologia é que por conta dos altos pre√ßos da soja, a cultura acaba impactando positivamente o sistema de renova√ß√£o dos canaviais. Ainda temos uma curva de posicionamento da tecnologia para alcan√ßar, mas acreditamos que seja plenamente vi√°vel", afirma.

De acordo com as an√°lises socioeconômicas do sistema, referentes aos resultados avaliados em Dourados (MS) nas safras 2018/19 e 2019/2020, a renda bruta da cana de ano foi de R$ 1.693,00/ha. J√° no sistema cana de ano com plantio em novembro, consorciada com milho-ver√£o colhido em mar√ßo, a renda bruta das duas culturas foi de R$ 6.898,00/ha. "Ent√£o, quando comparamos o sistema de cana de ano com o sistema de cana/milho temos um ganho significativo em termo de receita bruta. Isso é um argumento bastante interessante para o posicionamento da tecnologia", acredita.

Tecnologia beneficia usinas flex e reduz emiss√£o de carbono

A tecnologia do consórcio também é uma excelente op√ß√£o para as usinas flex, nas quais o milho é utilizado para a produ√ß√£o de etanol. Estudos de avalia√ß√£o de desempenho ambiental e econômico entregues como base para financiamento (BNDES) de usinas integradas com essas duas culturas demostraram que esse tipo de arranjo apresenta bom desempenho tanto econômico quanto ambiental. A nova pol√≠tica de biocombust√≠veis (RenovaBio) sinaliza o apoio e o incentivo por parte do governo à essa integra√ß√£o.

A partir dela, é poss√≠vel aos produtores mais eficientes e menos emissores serem beneficiados com créditos de descarboniza√ß√£o, denominados CBIOs, quando se evita a emiss√£o de uma tonelada de g√°s carbônico (CO2) na produ√ß√£o de um determinado biocombust√≠vel. Até 10 de dezembro de 2020, o valor médio de comercializa√ß√£o de um CBIO era de R$44,58 (fonte: B3, do Ministério de Minas e Energia - MME), o que significa uma renda extra aos produtores.

"Como o etanol é um dos bicombust√≠veis mais produzidos no Brasil e sua fonte pode ser de cana ou milho, o produtor que conseguir cultivar numa mesma √°rea as duas culturas pode se beneficiar dessa pol√≠tica. Para isso, ele deve ter sua cultura agr√≠cola eleg√≠vel, de forma a determinar um volume de biocombust√≠vel apto a participar da pol√≠tica, além de calcular a sua nota de efici√™ncia energético-ambiental (NEEA), usando a ferramenta denominada RenovaCalc. Quanto maiores a nota e o volume eleg√≠vel, maior ser√° o acesso aos CBIOs", explica a pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente (Jaguari√ļna/SP) Nilza Patr√≠cia.

De acordo com os Painéis Din√Ęmicos do Renovabio, a NEEA, média proveniente das usinas exclusivas de cana (E1GC), é de 59,93 g CO2eq/MJ (√≠ndice que mede a emiss√£o de GEE por unidade de energia) por etanol hidratado, enquanto a NEEA média de uma usina Flex (E1GFLEX), que processa cana solteira e milho solteiro, é de 62,04 g CO2eq/MJ de etanol hidratado. Ou seja, a associa√ß√£o da cana com o milho na gera√ß√£o de biocombust√≠veis pode evitar 3,5% de emiss√Ķes para as condi√ß√Ķes atuais. "Com a ocupa√ß√£o conjunta da terra possivelmente ser√£o reduzidas dist√Ęncias de transporte e poder√° haver aproveitamento de insumos, contribuindo ainda mais para a melhoria no desempenho ambiental do etanol", acredita a especialista.

Acesse aqui a publica√ß√£o Consórcio de Cana-de-a√ß√ļcar com Milho: recomenda√ß√Ķes de manejo para a regi√£o do Cerrado.


Manejo de plantas daninhas

Pesquisadores também estudam o manejo de plantas daninhas desse tipo de consórcio. "Temos que ficar atentos a estratégias para evitar a fitointoxica√ß√£o ou perda de produtividade para algumas das culturas, seja relacionada aos herbicidas ou por conta da interfer√™ncia das plantas daninhas", alerta a pesquisadora da Embrapa Cerrados, Nubia Correia. Segundo ela, o importante é que seja adotado um manejo que permita que o milho seja colhido sem plantas daninhas, o que facilita o manejo da cana-de-a√ß√ļcar.

Outro ponto destacado pela especialista é que o herbicida a ser utilizado tem que ser seletivo das duas culturas dentro de doses que elas toleram. "Ent√£o temos que fazer uma escolha assertiva desses produtos para que eles n√£o ocasionem nenhum tipo de dano nem no milho e nem na cana-de-a√ß√ļcar. Felizmente temos algumas op√ß√Ķes no mercado que atendem esses critérios com facilidade", informa. A pesquisadora pontua, ainda, que o desenvolvimento da cana pode interferir no do milho. "Nesse caso, se o crescimento da cana est√° maior do que o do milho nós temos que ficar atentos. É preciso entrar com algum tratamento qu√≠mico que ocasione estresse na cana para que ela trave o crescimento e n√£o provoque nenhum tipo de interfer√™ncia no milho, ocasionando perda de produtividade", explica.

Comunicar erro
GG Notícias

© 2021 GG Notícias - Todos os direitos reservados.

•   Política de Cookies •   Política de Privacidade    •   Contato   •

GG Notícias