Opini√£o Opini√£o

A luneta mágica e os casos de intolerância no Brasil: racismo, machismo, etarismo e gordofobia

Por Tânia Lins

26/10/2021 às 10:51:14 - Atualizado h√°

A leitura dos cl√°ssicos nos oferece a certeza de que os grandes autores eram, antes de tudo, severos observadores da natureza humana. Certo dia, diante de fatos que exp√Ķem a mediocridade do pensamento humano, que ferem e dilaceram a alma de indivíduos que diferem do padr√£o estabelecido, me lembrei de um dos meus livros prediletos: A luneta m√°gica, de Joaquim Manuel de Macedo. O romance, sob domínio público, foi escrito em 1869 e traz, com uma veia cômica, mas nem por isso arbitr√°ria, a cegueira física e moral da sociedade no final do segundo império representada pelo protagonista Simplício. E o que isso tem a ver com a intoler√Ęncia? Tudo! Basta analisarmos os casos com os quais nos deparamos diariamente.

Tal como o personagem, fazemos uso, inadvertidamente, de lentes que distorcem nossa j√° limitada vis√£o e que potencializam nossas atitudes vergonhosas, enfraquecendo qualquer rastro de empatia. E, amparados por essas "muletas", mostramos toda a degrada√ß√£o de que somos capazes. Dia após dia, nos deparamos com fatos que ilustram as mazelas que perduram no mundo. Em reportagem ao Fant√°stico, a consultora de Direito Maria Nazaré Paulino contou que foi vítima de racismo por parte de um motorista de aplicativo, que se negou a atend√™-la quando viu que a passageira era negra. "A chicotada foi no lombo da minha alma. Nas minhas costas. Eu continuo tomando chicotada. Eu continuo indo. Eu continuo sendo amarrada no tronco", desabafa a mulher, ainda bastante abalada com o ocorrido.

E esse é só um dos exemplos de viol√™ncia física e psicológica. O programa ainda mostrou que uma rede de farm√°cias do Rio Grande do Sul orientava os recrutadores a n√£o contratarem homossexuais, pessoas gordas e tatuadas. Ou seja, tudo o que foge do modelo míope e opressor – construído h√° décadas – deve ser posto à margem, como se fazia em Esparta, na Grécia Antiga, condenando à morte pessoas com necessidades especiais, pois n√£o poderiam se tornar bravos guerreiros.

Voltando à obra de Joaquim Manuel de Macedo, Simplício, ao aceitar as lentes do m√°gico arm√™nio sem pondera√ß√£o e senso crítico, segue ratificando comportamentos presentes numa sociedade adoecida, como tantos de nós fazemos. Em seus momentos de dor e desespero, ele muitas vezes concluiu que era melhor ser cego do que ver demais. Quem nunca o fez?

Em contraposi√ß√£o ao personagem, n√£o podemos, contudo, esperar que algum mago nos presenteie com as lentes do bom senso. A mudan√ßa n√£o se dar√° num passe de m√°gica, e desconstruir velhos e equivocados conceitos requer coragem. Sim, o bem pode ser aprendido por meio da arte, da literatura, do cinema, do convívio com o próximo. Quando entendermos que a sociedade é construída por pessoas como eu, como voc√™, que n√£o banalizam o racismo, a homofobia, o machismo, o etarismo, e tantos outros males, os ventos da igualdade, do respeito e da solidariedade soprar√£o em todos os continentes, trazendo as transforma√ß√Ķes necess√°rias ao nosso planeta e ao nosso universo. Fiat Lux!

| T√Ęnia Lins é formada em Administra√ß√£o de Empresas e pós-graduada em Língua Portuguesa e Comunica√ß√£o Empresarial e Institucional. Atua h√° mais de dez anos na √°rea editorial, com experi√™ncia profissional e acad√™mica voltada à edi√ß√£o, prepara√ß√£o e revis√£o de obras, gerenciamento de produ√ß√£o editorial, leitura crítica e coaching liter√°ria. Atualmente é coordenadora editorial na Editora Vida & Consci√™ncia.

Comunicar erro
GG Notícias

© 2021 GG Notícias - Todos os direitos reservados.

•   Política de Cookies •   Política de Privacidade    •   Contato   •

GG Notícias