Mar de soja, mar de gente: O agro impulsiona o crescimento das "capitais agrícolas"

Censo 2022 revela que a produção de grãos impulsionou o aumento populacional nos principais polos agropecuários do Brasil

Foto: Wenderson Araujo

Foto: Wenderson Araujo

Se você visitou o norte de Mato Grosso há uma década e retornou agora, pode não reconhecer mais a região que se tornou o coração da agricultura brasileira. Ilson José Redivo, presidente do sindicato rural de Sinop, o principal município do norte do estado, afirma que seus amigos ficam surpresos com o crescimento da cidade quando a visitam. Essa transformação não é única de Sinop, mas reflete uma tendência presente nas "capitais do agro" em todo o país.

O Censo 2022 revela que Sinop, conhecida como a "Capital do Nortão" de Mato Grosso, teve uma das maiores taxas médias de crescimento populacional entre 2010 e 2022. A cidade registrou um aumento anual de 4,69%, chegando a uma expansão de 73,4% em sua população, totalizando 196 mil habitantes.

Uma análise mais detalhada dos dados do Censo revela que a agricultura foi o principal impulsionador desse crescimento populacional nas "capitais do agro". O cultivo de grãos, especialmente de soja, tem sido a atividade dominante em cidades como Sinop e em grande parte de Mato Grosso, impulsionando o aumento do número de habitantes nos polos agropecuários.

Economistas da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) cruzaram os dados do Censo 2022 com a lista de cidades que lideram a atividade agropecuária no país. Dos 100 municípios com maior Valor Adicionado Bruto (VAB) da agropecuária, 86 tiveram um aumento populacional entre 2010 e 2022. Dessas 86 cidades, a atividade predominante é o cultivo de grãos. Sinop, por exemplo, lidera o ranking de exportações de Mato Grosso, com a soja representando 85% do total dos embarques.

Em Sinop, há mais agrônomos do que médicos ou advogados. No entanto, o crescimento populacional não é impulsionado apenas pelos funcionários das fazendas. Toda uma cadeia de suprimentos sustenta a economia agrícola, empregando mecânicos, vendedores, pedreiros e muitos outros trabalhadores, mesmo que de forma indireta.

Foto: Felipe Yatabe

O caso de Sinop não é isolado. Outras cidades do Centro-Oeste, como Lucas do Rio Verde, Nova Mutum e Sorriso, também tiveram um crescimento expressivo devido ao agronegócio. Essas cidades viram a expansão de indústrias de etanol de milho, aproveitando a transição para a agricultura mecanizada e a ampliação do cultivo de grãos.

Querência, por sua vez, experimentou um crescimento de 105% em sua população entre 2010 e 2022. A área de cultivo de soja quase dobrou nesse intervalo, impulsionando a demanda por habitação e infraestrutura. A falta de mão de obra é evidente, mas isso não impediu o crescimento contínuo da cidade.

O asfaltamento da BR-242 também contribuiu para o desenvolvimento de cidades como Querência, melhorando a infraestrutura e atraindo mais investimentos para a região. Hoje, Querência possui uma das maiores áreas de cultivo de soja do país, com mais de 400 mil hectares.

O cenário é de mudança e crescimento nas "capitais do agro". As cidades que antes eram conhecidas por sua exploração madeireira ou por serem pontos finais de linhas rodoviárias agora são sinônimos de prosperidade agrícola. O agronegócio tem impulsionado a economia e o crescimento populacional dessas regiões, transformando paisagens e criando novas oportunidades para os trabalhadores locais.

O futuro das "capitais do agro" promete ainda mais avanços e transformações à medida que o setor agrícola continua a se expandir. Os dados do Censo 2022 são apenas um indicativo do poder transformador da agricultura e do seu papel crucial no desenvolvimento socioeconômico do país.